Gênero, Sexualidade e Território: Desafios e Resistências nas Periferias

As discussões sobre gênero e sexualidade no Brasil não podem ser dissociadas das condições de território e classe social. Quando olhamos para as periferias urbanas, podemos observar que as desigualdades de gênero e as violências relacionadas à sexualidade não se manifestam de forma isolada, mas atravessadas por marcadores sociais raça, classe, geração, religião e pertencimento comunitário. Nesse sentido, pensar as periferias como lócus de análise é fundamental para compreender como as opressões se estruturam e, ao mesmo tempo, como práticas de resistência emergem nesses contextos.

Nas periferias, as mulheres e pessoas LGBTQIA+ enfrentam um cotidiano marcado pela precarização: falta de acesso a políticas públicas, serviços de saúde e educação de qualidade, insegurança alimentar e violência urbana. Essas condições potencializam a vulnerabilidade a violências de gênero e sexualidade, que se expressam tanto na esfera doméstica quanto nos espaços públicos. O feminicídio, por exemplo, atinge de forma desproporcional mulheres negras e periféricas, revelando a intersecção entre racismo estrutural e desigualdades de gênero (CRENSHAW, 2002; SAFFIOTI, 2015).

Contudo, reduzir a periferia apenas a um espaço de carência seria uma leitura limitada. É nesses territórios que florescem formas de organização coletiva que reafirmam identidades, produzem redes de apoio e constroem estratégias de sobrevivência. Coletivos de mulheres, associações comunitárias, grupos de jovens e movimentos culturais vêm ressignificando a experiência de viver na periferia, transformando dor em potência política (HOOKS, 2019). A arte urbana, como o rap, o slam, o grafite e as danças de rua, tem se mostrado um instrumento para denunciar opressões e reivindicar dignidade e direitos.

A sexualidade também se expressa nesses espaços de forma plural, muitas vezes desafiando normas hegemônicas. Jovens periféricos constroem estéticas, linguagens e modos de viver que confrontam estigmas e criam novas possibilidades de existência. A luta por reconhecimento de identidades de gênero e orientações sexuais diversas, quando articulada às pautas territoriais, amplia o campo das reivindicações sociais e torna visível a complexidade da experiência periférica (AKOTIRENE, 2019).

Assim, pensar gênero e sexualidade a partir da perspectiva territorial nos leva a reconhecer que não existe uma experiência universal de ser mulher, de ser LGBTQIA+ ou de viver a sexualidade. Essas vivências são profundamente marcadas pelas condições sociais e geográficas, e só podem ser compreendidas quando consideramos as interseccionalidades presentes.

Mais do que denunciar a violência, é necessário fortalecer políticas públicas que tenham recorte territorial, garantindo a efetividade da proteção social e a promoção da cidadania plena. É também imprescindível valorizar as experiências de resistência e cuidado que já acontecem dentro das comunidades, pois são nelas que nascem as sementes de luta para um futuro mais justo e igualitário.

A partir da perspectiva de desafios e resistências, é necessário reconhecer que ser quem se é na expressão de gênero, na orientação sexual e nas múltiplas formas de existir constitui um ato político e de resistência, sobretudo nas periferias. Em contextos marcados pela falta de recursos e pela ausência de políticas públicas efetivas, pessoas LGBTQIA+ se tornam mais suscetíveis a discriminações e violências, que vão desde o silenciamento e outras formas de agressões.

A vulnerabilidade se intensifica quando a estrutura social limita o acesso a espaços de acolhimento, educação e saúde, dificultando tanto a denúncia das violências quanto o exercício pleno da cidadania. Nessa lógica, o poder aquisitivo assume papel determinante: quanto maior o acesso a redes de apoio, informação e serviços, maior é a possibilidade de viver sua identidade e sexualidade de forma autônoma e segura. Contudo, nas periferias, onde o território muitas vezes é também sinônimo de resistência, constituem formas singulares de existir e afirmar-se, reafirmando que a luta por visibilidade e dignidade extrapola o campo individual e se inscreve como demanda coletiva (BENTO, 2017; BUTLER, 2003).

Desse modo, é indispensável fortalecer políticas públicas afirmativas voltadas a grupos historicamente marginalizados, pois são elas que viabilizam o exercício pleno da cidadania e a redução das desigualdades estruturais. A presença do Estado, por meio de ações que considerem as especificidades de gênero, sexualidade, raça e território, representa um ponto de mudança essencial na construção de uma sociedade mais justa. Políticas que assegurem o direito à educação inclusiva, ao trabalho digno, à segurança e à saúde integral especialmente para mulheres, pessoas LGBTQIA+ e demais grupos em vulnerabilidade nas periferias constituem caminhos concretos para transformar realidades a partir da justiça social. (OLIVEIRA, 2025)

Referências:

AKOTIRENE, Carla. Interseccionalidade. São Paulo: Sueli Carneiro; Pólen, 2019.

BENTO, Berenice. A reinvenção do corpo: sexualidade e gênero na experiência transexual. São Paulo: Ed. da Unesp, 2017.

BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.

CRENSHAW, Kimberlé. Documento para o encontro de especialistas em aspectos da discriminação racial relativos ao gênero. Estudos Feministas, v. 10, n. 1, p. 171-188, 2002.

HOOKS, bell. O feminismo é para todo mundo: políticas arrebatadoras. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 2019.

SAFFIOTI, Heleieth I. B. Gênero, patriarcado, violência. 2. ed. São Paulo: Expressão Popular, 2015.

OLIVEIRA, M. G. M.; SOUZA, R. S. de. POLÍTICAS CULTURAIS E INCLUSÃO SOCIAL. Revista

Contemporânea, v. 5, n. 6, e8305, 2025. Disponível em: https://doi.org/10.56083/RCV5N6-016.

Jussara Barros de Azevêdo

Assistente Social e ativista pelos Direitos Humanos. Pós-graduada em Serviço Social, Educação, Diversidade e Inclusão Social, possui trajetória marcada pela atuação em políticas públicas de alta complexidade, com mulheres, crianças, adolescentes, pessoas com deficiência, pessoas em situação de rua e em contextos de uso abusivo de substâncias psicoativas. Tem experiência em movimentos sociais de mulheres, comunidade LGBTQIA+, e foi conselheira do Conselho Distrital de Promoção e Defesa dos Direitos Humanos de Brasília (CDPDDH).

Tem escritas sobre as temáticas: Direitos Humanos; Preconceito e seus impactos na comunidade LGBTQIA+; Acesso à educação em tempos de pandemia. Atualmente, desenvolve um artigo em formato de pesquisa sobre “Abandono e Vulnerabilidade Animal no Sol Nascente-DF: o olhar do Serviço Social sobre sensibilização comunitária e políticas públicas de proteção animal”, e o artigo “Mulheres que cuidam: a invisibilidade que se repete”, dedicado às histórias de resistências que marcam a vida das mulheres trabalhadoras.

Uma resposta

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