Este texto nasce em homenagem à Lêda Maria, minha mãe, e também a tantas outras mulheres que, como ela, sustentaram famílias, casas e vidas inteiras. Mulheres que enfrentaram e enfrentam duplas jornadas, dentro e fora do lar, carregando sobre si o peso histórico de um cuidado naturalizado como “função feminina”. Vidas fundamentais, mas frequentemente invisibilizadas, cujo esforço raramente foi reconhecido na mesma proporção do que foi exigido.
Nordestina, mãe solo e chefe de família durante grande parte da vida, Lêda representa milhares de mulheres atravessadas pela desigualdade social brasileira. Migrou ainda adolescente, deixando seu estado em busca de sobrevivência, e encontrou, como tantas, no trabalho doméstico não remunerado, realizado em troca de abrigo e comida, o início de sua jornada laboral.
Depois disso, sua história foi marcada por ocupações mal remuneradas, longas e exaustivas horas de trabalho e salários que jamais refletiram a grandeza de seu esforço físico e emocional. Como aponta Marx, o capitalismo se sustenta na exploração de uma força de trabalho cujo valor real é sistematicamente desconsiderado, e, no caso das mulheres pobres, isso se intensifica, pois, parte do trabalho que realizam sequer é reconhecido como trabalho.
Sobre os estudos, vale perguntar: Lêda abandonou a escola? Ou foi o Estado que abandonou Lêda? Assim como milhares de mulheres da classe trabalhadora, ela foi atravessada pela necessidade urgente de sobreviver, em um contexto onde estudar naquele período e naquela realidade, nunca se apresentou como uma possibilidade concreta de mudança. A exaustão diária consumia não apenas horas, mas a energia vital necessária para permanecer na educação formal, energia que precisou ser reservada para o cuidado dos filhos, para os afazeres domésticos e para a luta cotidiana pela própria subsistência.
A vida de Lêda, assim como a de tantas outras mulheres trabalhadoras, poderia ter sido menos árdua se o Estado tivesse garantido políticas públicas eficazes no enfrentamento da pobreza estrutural e da desigualdade social. Como analisa Iamamoto, as expressões da questão social não recaem sobre indivíduos de forma isolada, mas são produto das condições históricas e sociais.
A sobrecarga mental vivenciada por Lêda e pelas diversas mulheres é resultado de uma organização social que delega a elas a responsabilidade quase exclusiva pelo cuidado, pela gestão da rotina doméstica e pela manutenção das relações familiares. Mesmo quando inseridas no mercado de trabalho, permanecem acumulando funções que exigem constante vigilância emocional, planejamento e antecipação das necessidades de todos ao redor, o que intensifica a dupla e até tripla jornada.
Essa dinâmica revela como o trabalho de cuidado segue naturalizado e invisibilizado, sendo historicamente associado ao papel feminino. Nesse sentido, Angela Davis evidencia essa invisibilidade ao afirmar que “o trabalho doméstico é um dos pilares invisíveis que sustentam a sociedade”. (DAVIS, 1981)
Promover uma educação comprometida com a formação de meninos e meninas livres do machismo é um dos pontos centrais dessa discussão. Como afirma Saffioti “a dominação masculina não se sustenta apenas pela força, mas pela educação que naturaliza e reproduz desigualdades desde a infância.” (SAFFIOTI (2015, p. 45):
Há uma necessidade urgente de investir na construção de adultos mais funcionais, conscientes e igualmente ativos nos afazeres domésticos. Isso começa na infância: distribuir atividades conforme a idade contribui não apenas para o desenvolvimento de adultos mais responsáveis, mas também para a formação de um cérebro que reconhece desde cedo a importância do coletivo e da própria utilidade no cotidiano e na própria vida.
Ensinar que quem suja, lava; que, para comer, alguém precisou cozinhar e que essa pessoa pode ser eles mesmos, no agora ou no futuro. Aprender a preparar o próprio lanche, arrumar a própria cama, jogar o lixo na lixeira, compreender que tudo tem um custo, desenvolver sentimento de gratidão. São pequenos gestos, repetidos ao longo da vida, que moldam sujeitos mais empáticos, autônomos e conscientes do impacto que têm no mundo e nas relações. Sobretudo, é fundamental construir consciência social: reconhecer quem tornou e torna a nossa vida mais fácil no cotidiano, especialmente as mulheres que, historicamente, carregaram sozinhas o peso dos cuidados e dos afazeres domésticos, quase sempre de forma invisibilizada.
E, entre todos esses trabalhos invisíveis, cozinhar talvez seja um dos atos mais simbólicos de amor: árduo, silencioso e profundamente afetivo. Cozinhar é organizar o pouco para que dê para todos, é calcular para que sobre para o outro dia, é transformar escassez em sustento. Para muitas mulheres, cozinhar não é escolha, é obrigatoriedade, uma tarefa que nasce da necessidade, não dá vontade, mas que ainda assim carrega gestos de cuidado que sustentam famílias inteiras.
Foi assim também com minha mãe, Lêda Maria, que tantas vezes fez da panela um gesto de resistência: equilibrando tempo, cansaço e recursos escassos para garantir que seus filhos tivessem alimento, mesmo quando a realidade era dura. Ao agradecer a ela, agradeço simbolicamente a todas as mulheres que sustentam vidas com o que têm e, muitas vezes, com o que não têm.
Neste texto, procurei trazer alguns fragmentos que marcam a trajetória de minha mãe e de tantas mulheres brasileiras. Carrego um desejo profundo de que ela não tivesse enfrentado os agravos físicos e a sobrecarga mental produzidos pela desigualdade social. Que aos 60 anos, ainda tão jovem, sua saúde não estivesse marcada por impactos irreversíveis decorrentes de uma vida inteira de trabalho exaustivo, invisível e mal remunerado.
Que a história e a vida de Lêda Maria seja honrada, vista e reconhecida. Que histórias como a dela deixem de ser realidade e passem a existir apenas como registros de um passado que não queremos repetir, como marcas que lembram o que não deve ser naturalizado e como exemplos do tipo de dignidade que todo ser humano deveria experimentar.
Escrevo com afeto, com gratidão e com o compromisso de não deixar que vidas como a dela permaneçam no silêncio. Esta é uma singela homenagem e, ao mesmo tempo, um lembrete de que a luta por justiça social também começa ao dar nome e visibilidade a quem sempre sustentou o mundo com as próprias mãos.
REFERÊNCIAS BIBIOGRÁFICAS
DAVIS, Angela. Mulheres, raça e classe. Tradução: Heci Regina Candiani. 2. ed. São Paulo: Boitempo, 2016.
IAMAMOTO, Marilda V. Serviço social em tempo de capital fetiche: capital financeiro, trabalho e questão social. 2. ed. São Paulo: Cortez, 2008.
MARX, Karl. O Capital: crítica da economia política. Livro I. São Paulo: Boitempo, 2013.
SAFFIOTI, Heleieth I. B. Gênero, patriarcado, violência. 2. ed. São Paulo: Expressão Popular, 2015.
Assistente Social e ativista pelos Direitos Humanos e pela causa animal. Atualmente, atua como Perita Social em processos nomeados pelo Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios (TJDFT). Pós-graduada em Serviço Social, Educação, Diversidade e Inclusão Social, possui trajetória marcada pela atuação em políticas públicas de alta complexidade, com mulheres, crianças, adolescentes, pessoas com deficiência, pessoas em situação de rua e em contextos de uso abusivo de substâncias psicoativas.
Com experiência em movimentos sociais e organizações da sociedade civil, foi conselheira no Conselho Distrital de Promoção e Defesa dos Direitos Humanos de Brasília (CDPDDH). Desenvolveu escritas sobre temáticas como: Direitos Humanos; preconceito e seus impactos na comunidade LGBTQIA+; e acesso à educação em tempos de pandemia. Atualmente, elabora um artigo científico vinculado à pós-graduação em Planejamento e Gestão de Políticas Públicas/Sociais, intitulado “Abandono e Vulnerabilidade Animal no Sol Nascente-DF: o olhar do Serviço Social sobre sensibilização comunitária e políticas públicas de proteção animal”.